
Como a cobrança por desempenho na escola e na universidade pode impactar ansiedade, energia mental e bem-estar emocional.
Nos últimos anos, a discussão sobre saúde mental de estudantes ganhou espaço não apenas nas redes sociais, mas também na literatura científica e em políticas institucionais. Estudos nacionais e internacionais mostram aumento significativo de sintomas de ansiedade, estresse e exaustão emocional entre adolescentes do ensino médio e jovens adultos no ensino superior. Esse fenômeno não pode ser compreendido apenas como fragilidade individual. Ele está profundamente relacionado às demandas acadêmicas, à pressão por desempenho e à dificuldade de recuperação em rotinas cada vez mais intensas.
Reconhecer esse cenário não significa diminuir a importância do estudo ou reduzir expectativas. Significa compreender que o ambiente educacional atual pode gerar níveis de exigência que ultrapassam a capacidade de adaptação quando não há equilíbrio entre demanda e recuperação.
A pressão acadêmica começa antes da universidade
Embora muitos associem sofrimento acadêmico apenas à vida universitária, sinais de sobrecarga aparecem frequentemente já no ensino médio. Provas frequentes, preparação para vestibulares, escolha profissional precoce e comparação constante com colegas podem transformar o estudo em uma fonte contínua de tensão.
Adolescentes vivem simultaneamente um período de desenvolvimento emocional, construção de identidade e transição para a vida adulta. Quando o desempenho acadêmico passa a ser percebido como determinante para o valor pessoal ou para o futuro, a pressão psicológica aumenta significativamente. Estudos mostram que estudantes do ensino médio expostos a altos níveis de cobrança apresentam maior prevalência de sintomas ansiosos, alterações de sono e sensação persistente de inadequação.
A intensificação das demandas no ensino superior
Na universidade, a dinâmica muda, mas a pressão pode se intensificar. Além das avaliações e prazos acadêmicos, surgem desafios como autonomia na gestão do tempo, adaptação a novos ambientes sociais, expectativas profissionais e, frequentemente, a necessidade de conciliar estudo com trabalho.
Pesquisas indicam que estudantes universitários apresentam níveis elevados de estresse percebido e sintomas de ansiedade, associados à sobrecarga acadêmica, insegurança quanto ao futuro e dificuldade de estabelecer limites saudáveis. A comparação social, facilitada por ambientes altamente competitivos, contribui para a sensação de estar sempre atrasado ou insuficiente.
A metáfora da bateria mental
Uma forma acessível de compreender esse processo é pensar na saúde mental como uma bateria que precisa ser recarregada. O problema não está apenas no gasto de energia, mas na ausência de recuperação adequada. Muitos estudantes mantêm rotinas intensas sem pausas reais, com sono irregular e sensação de culpa ao descansar.
Quando não há recuperação suficiente, surgem sinais como cansaço persistente, dificuldade de concentração, irritabilidade, procrastinação associada à exaustão e perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas. Esses sinais não indicam falta de esforço, mas sobrecarga prolongada dos sistemas de atenção e regulação emocional.
Quando o cansaço deixa de ser pontual
Períodos de maior estresse são esperados em fases específicas do calendário acadêmico. O alerta surge quando o cansaço se torna constante e não melhora mesmo após pausas ou momentos de descanso. A literatura científica aponta que exposição prolongada a estressores educacionais, sem estratégias adequadas de enfrentamento e suporte, aumenta o risco de quadros ansiosos, depressivos e de esgotamento emocional.
Muitos estudantes continuam funcionando externamente enquanto o custo interno aumenta. Essa discrepância entre desempenho aparente e sofrimento emocional pode atrasar a busca por ajuda e contribuir para a cronificação do problema.
Pressão acadêmica não é sinônimo de crescimento saudável
Desafios e exigências podem favorecer aprendizado quando acompanhados de apoio, previsibilidade e espaço para erro. O problema surge quando a lógica predominante é de desempenho constante, comparação contínua e sensação de que nunca é suficiente.
Pesquisas sobre saúde mental estudantil destacam a importância de intervenções que integrem estratégias individuais e mudanças institucionais, incluindo programas de apoio psicológico, promoção de hábitos de sono adequados e redução do estigma associado à busca por ajuda.
Falar sobre isso é parte da prevenção
Reconhecer o impacto da pressão acadêmica na saúde mental não significa desistir de metas ou reduzir ambições. Significa criar condições mais sustentáveis para aprender e se desenvolver sem adoecer no processo.
Daniel Monteiro
Psicólogo | CRP 06/224090
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