
Entenda como o estresse crônico no trabalho tem impactado a saúde mental e por que isso não é falta de força.
O aumento do cansaço emocional relacionado ao trabalho deixou de ser apenas uma percepção clínica e passou a ser um dado concreto de saúde pública. Em 2024, mais de 470 mil pessoas precisaram se afastar do trabalho por transtornos mentais, segundo dados oficiais do INSS. Esses números não falam apenas de sofrimento individual. Eles revelam um cenário em que a forma como o trabalho está organizado tem impactado diretamente a saúde mental, o funcionamento cotidiano e a vida de milhares de pessoas.
Falar sobre isso com seriedade é uma forma de prevenção. Ignorar ou normalizar esse esgotamento costuma ter um custo alto, tanto para quem vive a experiência quanto para as organizações e para a sociedade.
O que significa afastamento por saúde mental no trabalho
Quando se fala em afastamento por transtornos mentais no contexto do INSS, não se está falando de um único diagnóstico nem de uma única causa. Entram nessa categoria quadros distintos, como transtornos de ansiedade, transtornos depressivos, reações ao estresse e outros transtornos mentais e comportamentais. O afastamento é o desfecho administrativo e clínico de um processo que, na maioria das vezes, começou muito antes, com sinais progressivos de desgaste emocional e funcional.
Esses sinais costumam ser minimizados no início. Muitas pessoas seguem funcionando, trabalhando e se cobrando, até que o corpo e a mente já não conseguem sustentar o mesmo ritmo.
Estresse não é o problema, o problema é quando ele não acaba
Do ponto de vista psicológico e fisiológico, o estresse é um sistema adaptativo. Ele existe para mobilizar energia diante de desafios. O problema surge quando essa ativação se torna crônica. Ambientes com pressão constante, alta demanda, pouca previsibilidade, baixa autonomia e recuperação insuficiente favorecem um estado de alerta permanente.
Quando esse estado se prolonga, aumentam as chances de alterações do sono, irritabilidade, ansiedade persistente, queda de concentração, fadiga contínua e sensação de esgotamento. Em pessoas com vulnerabilidades prévias ou sem suporte adequado, esse processo pode evoluir para quadros clínicos mais estruturados, que comprometem significativamente o funcionamento.
O que os dados do INSS ajudam a entender
Os dados de afastamento por transtornos mentais não indicam que as pessoas ficaram mais fracas ou menos resilientes. Eles mostram que algo no modo como o trabalho tem sido vivido não está sustentável para uma parcela crescente da população. O afastamento, nesse sentido, não deve ser visto apenas como um evento isolado, mas como um marcador de impacto funcional, com repercussões na renda, na identidade profissional, nos vínculos e na saúde física.
A literatura científica aponta associações consistentes entre estresse ocupacional, esgotamento emocional e maior probabilidade de faltas ao trabalho, licenças médicas e intenção de desligamento. O afastamento costuma ser o capítulo final de um processo de adoecimento que já vinha se desenhando há algum tempo.
Quando o corpo começa a sinalizar
Na prática clínica, alguns sinais aparecem com frequência em pessoas que estão adoecendo em função do trabalho. Dificuldade de desligar mesmo fora do expediente, sono não reparador, irritabilidade desproporcional, sensação constante de urgência, perda de prazer em atividades que antes ajudavam a recuperar energia, lapsos de memória e queda de tolerância a frustrações são exemplos comuns.
Esses sinais muitas vezes são interpretados como falhas pessoais. Uma leitura mais precisa é entendê-los como indicadores de que os recursos de adaptação do organismo estão sendo exigidos além do limite naquele momento. Não se trata de frescura ou falta de força, mas de um corpo tentando se proteger.
Normalizar o esgotamento costuma custar caro
Um dos riscos mais frequentes é normalizar o adoecimento e adiar o cuidado. Muitas pessoas só procuram ajuda quando já estão no limite ou quando o afastamento se torna inevitável. No entanto, intervenções feitas antes do colapso tendem a ser mais eficazes e menos disruptivas.
Diretrizes internacionais sobre saúde mental no trabalho destacam a importância de abordagens que integrem cuidado clínico, reorganização de rotinas, desenvolvimento de habilidades de regulação emocional e análise dos fatores do contexto laboral que estão mantendo o sofrimento. Cuidar da saúde mental não é apenas tratar sintomas, mas criar condições mais sustentáveis de funcionamento.
Falar sobre isso é uma forma de cuidado
Reduzir o adoecimento mental relacionado ao trabalho não depende apenas de esforço individual. Trata-se de uma interseção entre pessoa, ambiente e condições reais de vida. Reconhecer os sinais, buscar apoio e organizar esse processo com seriedade são formas de responsabilidade consigo mesmo.
Se você anda se sentindo assim, não precisa carregar isso sozinho. Falar sobre isso com alguém pode fazer diferença.
Daniel Monteiro
Psicólogo | CRP 06/224090
Referências bibliográficas
BRASIL. Instituto Nacional do Seguro Social. Benefícios concedidos: Plano de Dados Abertos. Portal de Dados Abertos do INSS. Disponível em: https://dadosabertos.inss.gov.br.
BRASIL. Ministério da Previdência Social. Boletim Estatístico Mensal de Benefícios por Incapacidade. Disponível em: https://www.gov.br/previdencia.
LEE, C. et al. The association of burnout with work absenteeism and intent to leave employment among health care workers. Journal of Occupational Health Psychology, 2023.
SHIRI, R. et al. Effective interventions to reduce sick leave in workers with depressive and anxiety symptoms. Journal of Psychosomatic Research, 2025.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on mental health at work. Geneva: WHO, 2022.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Burn out an occupational phenomenon. Geneva: WHO, 2019.
